18 de Junho de 2026
Quando o Fantástico exibiu a reportagem “Surto de ebola preocupa o mundo”, exibida no dia 23/05, o público brasileiro foi novamente apresentado à República Democrática do Congo por meio de uma narrativa marcada pela emergência sanitária, pelo medo da contaminação e pela insegurança vivida pela população diante da disseminação do vírus. A reportagem cumpria uma função jornalística importante ao informar sobre um problema de saúde pública que continua produzindo impactos significativos na região. No entanto, ela também reproduzia um padrão recorrente nas representações midiáticas do país: o Congo aparecia, mais uma vez, associado à doença, à crise e à instabilidade.
A questão não está em noticiar o ebola, mas em observar o que permanece fora do enquadramento. O vírus foi identificado pela primeira vez em 1976, na então República do Zaire, atual República Democrática do Congo. Desde então, sucessivos surtos foram registrados ao longo de décadas. Diante desse histórico, talvez uma pergunta igualmente relevante fosse: por que, após quase cinquenta anos, a comunidade internacional ainda não conseguiu construir respostas duradouras para uma doença cuja existência, dinâmica e impacto são amplamente conhecidos?
Quando epidemias recorrentes são apresentadas apenas como tragédias locais, corre-se o risco de invisibilizar questões estruturais mais amplas, como os investimentos insuficientes em sistemas de saúde, as desigualdades globais na produção científica, o acesso desigual a medicamentos e a própria seletividade do interesse internacional. Em outras palavras, a permanência do problema não pode ser compreendida apenas como uma questão congolesa; ela também revela prioridades políticas e econômicas de alcance global.
Talvez o problema não seja apenas epidemiológico. Talvez também seja político. Afinal, quais vidas mobilizam investimentos globais rápidos e quais permanecem por décadas à espera de soluções estruturais? Quando uma doença reaparece sucessivamente ao longo de quase cinquenta anos, talvez seja necessário discutir não apenas os surtos em si, mas também a persistente falta de interesse internacional em enfrentar de forma duradoura as condições que permitem sua recorrência.
Foi nesse contexto que me lembrei de Christian Mutulani. Conheço Christian há três anos, por meio de projetos de intercâmbio epistolar entre estudantes brasileiros e jovens africanos. Ao longo desse período, acompanhei parte de sua trajetória, de seus projetos e de seus desafios cotidianos. Congolês, educador e interlocutor dessas iniciativas, Christian representa uma realidade raramente visível nas narrativas produzidas sobre seu país.
Marina Colbachini é professora de inglês e de redação e doutoranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/Unicamp. Há mais de dez anos desenvolve pesquisas e projetos voltados ao diálogo intercultural com refugiados da África Subsaariana, investigando escuta, narrativas e representação na mídia.
Leia a matéria completa em:
https://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornalismo/quando-a-origem-substitui-a-biografia/